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Arquivo da Categoria: Literatura

A Língua Portuguesa

5 de maio

Dia da Língua Portuguesa e da Cultura

Floreça, fale, cante, ouça-se e viva

A portuguesa língua, e já, onde for,

Senhora vá de si, soberba e altiva.

António Ferreira (1528-1569)

     Gosto de dizer. Direi melhor: gosto de palavrar. As palavras são para mim corpos tocáveis, sereias visíveis, sensualidades incorporadas. Talvez porque a sensualidade real não tem para mim interesse de nenhuma espécie – nem sequer mental ou de sonho -, transmudou-se-me o desejo para aquilo que em mim cria ritmos verbais, ou os escuta de outros. Estremeço se dizem bem. Tal página de Fialho, tal página de Chateaubriand, fazem formigar toda a minha vida em todas as veias, fazem-me raivar tremulamente quieto de um prazer inatingível que estou tendo. Tal página, até, de Vieira, na sua fria perfeição de engenharia sintáctica, me faz tremer como um ramo ao vento, num delírio passivo de coisa movida. (…)

     Não choro por nada que a vida traga ou leve. Há porém páginas de prosa que me têm feito chorar. Lembro-me, como do que estou vendo, da noite em que, ainda criança, li pela primeira vez numa selecta o passo célebre de Vieira sobre o Rei Salomão. “Fabricou Salomão um palácio…” E fui lendo, até ao fim, trémulo, confuso; depois rompi em lágrimas, felizes, como nenhuma felicidade real me fará chorar, como nenhuma tristeza da vida me fará imitar. Aquele movimento hierático da nossa clara língua majestosa, aquele exprimir das ideias nas palavras inevitáveis, correr de água porque há declive, aquele assombro vocálico em que os sons são cores ideais – tudo isso me toldou de instinto como uma grande emoção política. E, disse, chorei; hoje, relembrando, ainda choro. Não é – não – a saudade da infância de que não tenho saudades: é a saudade da emoção daquele momento, a mágoa de não poder já ler pela primeira vez aquela grande certeza sinfónica.

     Não tenho sentimento nenhum político ou social. Tenho, porém, num sentido, um alto sentimento patriótico.

Minha pátria é a língua portuguesa.

     Nada me pesaria que invadissem ou tomassem Portugal, desde que não me incomodassem pessoalmente. Mas odeio, com ódio verdadeiro, com o único ódio que sinto, não quem escreve mal português, não quem não sabe sintaxe, não quem escreve em ortografia simplificada, mas a página mal escrita, como pessoa própria, a sintaxe errada, como gente em que se bata, a ortografia sem ípsilon, como o escarro directo que me enoja independentemente de quem o cuspisse.

     Sim, porque a ortografia também é gente. A palavra é completa vista e ouvida. E a gala da transliteração greco-romana veste-ma do seu veto manto régio, pelo qual é senhora e rainha.

Bernardo Soares, Livro do Desassossego

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Português e Literatura – o currículo na Biblioteca

Português e Literatura Portuguesa, a língua e a escrita, a escola e a aprendizagem – um caminho a par, faces de uma mesma Pátria como disse Bernardo Soares no Livro do Desassossego, assim, originalmente:

«Não tenho sentimento nenhum politico ou social. Tenho, porém, num sentido, um alto sentimento patriotico. Minha patria é a lingua portuguesa. Nada me pesaria que invadissem ou tomassem Portugal, desde que não me incommodassem pessoalmente. Mas odeio, com odio verdadeiro, com o unico odio que sinto, não quem escreve mal portuguez, não quem não sabe syntaxe, não quem escreve em orthographia simplificada, mas a pagina mal escripta, como pessoa própria, a syntaxe errada, como gente em que se bata, a orthographia sem ípsilon, como escarro directo que me enoja independentemente de quem o cuspisse.

Sim, porque a orthographia também é gente. A palavra é completa vista e ouvida. E a gala da transliteração greco-romana veste-m’a do seu vero manto régio, pelo qual é senhora e rainha.» 

Na Biblioteca, a exposição mostra os livros e a literatura do currículo, desde 1843, ano em nascemos Lyceu, até 1943, ano em que habitámos a nova casa e renascemos Liceu Nacional Sá da Bandeira.

 

 

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Um amor na Biblioteca

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Publicado por em 18 de Janeiro de 2019 em Bibliotecando, Literatura, Memória

 

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A Inglesa e o Marialva

inglesamarialva

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Publicado por em 11 de Janeiro de 2019 em Bibliotecando, Literatura, Memória

 

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Concurso Nacional de Leitura

Está já a decorrer a 13.ª Edição do Concurso Nacional de Leitura (CNL).

Na Escola Secundária de Sá da Bandeira, as inscrições estão abertas. 

Agora basta ler uma das obras selecionadas:

CNL-ESSB2018

 

 

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José Saramago: 20 anos de Nobel

‘Deram-me o Nobel, e o quê?’

20Anos-Nobel (11)

“Em certo sentido poder-se-á mesmo dizer que, letra a letra, palavra a palavra, página a página, livro a livro, tenho vindo, sucessivamente, a implantar no homem que fui as personagens que criei. Creio que, sem elas, não seria a pessoa que hoje sou, sem elas talvez a minha vida não tivesse logrado ser mais do que um esboço impreciso, uma promessa como tantas outras que de promessa não conseguiram passar, a existência de alguém que talvez pudesse ter sido e afinal não tinha chegado a ser.  
        Agora sou capaz de ver com clareza quem foram os meus mestres de vida, os que mais intensamente me ensinaram o duro ofício de viver, essas dezenas de personagens de romance e de teatro que neste momento vejo desfilar diante dos meus olhos, esses homens e essas mulheres feitos de papel e de tinta, essa gente que eu acreditava ir guiando de acordo com as minhas conveniências de narrador e obedecendo à minha vontade de autor…”

José Saramago , Discurso na Nobel Foundation, em 7 de dezembro de 1998

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Publicado por em 7 de Outubro de 2018 em Literatura

 

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130 anos de Pessoa(s)

130Pessoa-2018 (1)

Se a literatura portuguesa tivesse a sua época de festejos populares  Fernando Pessoa seria , certamente, um dos mais celebrados, dos que mais venderia, aquele que mais refletiria as tendências do marketing. Nos mais inusitados objetos se encontra a imagem de Pessoa – dos baralhos de cartas às camisolas, das pens às estilizadas sardinhas, dos tradicionais postais a embalagens de gomas, de canecas  a blocos de apontamentos, de canetas a isqueiros, de panos de louça a serviços de café – uma miríade de opções. 

Álvaro de Campos talvez o tivesse adivinhado 

Assim, como sou, tenham paciência!

Há 130 anos nasceu o génio que  tantas edições motiva:

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Há 83 anos (a 13 de janeiro de 1935) escreveu, na carta a Adolfo Casais Monteiro:

“Sou um dos poucos poetas portugueses que não decretou a sua própria infalibilidade, nem toma qualquer crítica, que se lhe faça, como um acto de lesa-divindade. Além disso, quaisquer que sejam os meus defeitos mentais, é nula em mim a tendência para a mania da perseguição.(…) Não penso nada do Caeiro, do Ricardo Reis ou do Álvaro de Campos. Nada disso poderei fazer, no sentido de publicar, excepto quando (ver mais acima) me for dado o Prémio Nobel. E contudo — penso-o com tristeza — pus no Caeiro todo o meu poder de despersonalização dramática, pus em Ricardo Reis toda a minha disciplina mental, vestida da música que lhe é própria, pus em Álvaro de Campos toda a emoção que não dou nem a mim nem à vida.”

Se a vida lhe tivesse dado tempo…

 

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