Telefonia

Em dia de celebrar a Rádio, a Biblioteca recorda Manuel da Fonseca e  um conto emblemático sobre o tema – Sempre é uma companhia: uma aldeia adormecida no desalento das rotinas, um casal acomodado na solidão do marido e no autoritarismo da mulher – eis a circunstância de um vendedor, para fazer o negócio que mudará aquele pedaço de Alentejo para sempre.

O-Fogo-e-as-Cinzas

Era já no dia seguinte que a telefonia deixaria de ouvir-se. Iam todos, de novo, recuar para muito longe, lá para o fim do mundo, onde sempre tinham vivido. Foi a primeira noite em que os homens saíram da venda mudos e taciturnos. Fora esperava-os o negrume fechado. E eles voltavam para a escuridão; iam ser, outra vez, o rebanho que se levanta com o dia, lavra, cava a terra, ceifa e recolhe vergado pelo cansaço e pela noite. Mais nada que o abandono e a solidão. A esperança de melhor vida para todos que a voz poderosa do homem desconhecido levava até à aldeia apagava-se nessa noite para não mais se ouvir. Dentro da venda, o Batola está tão desalentado como os ceifeiros. O mês passou de tal modo veloz que se esqueceu de preparar a mulher. Sobe ao balcão, desliga o fio e arruma o aparelho. Um pouco dobrado sobre as pernas arqueadas, com o chapeirão a encher-lhe a cara de sombra, observa magoadamente a preciosa caixa. Assim está, quando um pressentimento o obriga a voltar a cabeça; junto da porta que dá para os fundos da casa, a mulher olha-o com um ar submisso. «Que terá acontecido?» pensa o Batola, admirado de a ver ainda levantada àquela hora.

− António − murmura ela, adiantando-se até ao meio da venda − Eu queria pedir-te uma coisa…

Suspenso, o homem aguarda. Então, ela desabafa, inclinando o rosto ossudo, onde os olhos negros brilham com uma quase expressão de ternura:

− Olha… Se tu quisesses, a gente ficava com o aparelho. Sempre é uma companhia neste deserto.

Manuel da Fonseca, «Sempre é uma companhia», in O Fogo e as Cinzas, Lisboa,Editorial Caminho, 2011.

 Um autor fundamental na literatura portuguesaManuel da Fonseca.